FOLHA CULTURAL PATAXÓ

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sábado, 24 de dezembro de 2011

O Dia Escuro





Na manhã estranha
De tardes tacanhas
Saio com o dia escuro
Embaixo de nuvens negras
Entre as luzes ainda acesas.

No infinito ainda o reflexo
Da queda do último relâmpago.
As marcas da tempestade
Que escureceu todo meu âmago.

Nada impede que eu ande
Entre casas sem muros
De mármores escuros.

A ventania soprando mundo afora.
Talvez eu quisesse ter alguém
Do meu lado agora.

Na primeira esquina
Cruzo com o sorriso aberto
De uma criança escura
Que clareia toda a rua
Que esclarece toda dúvida.

Ninguém sabe o que se passa dentro dos aviões,
Dos carros, ônibus e caminhões
Que param e passam,
Que dão passagem e atropelam,
Passam por cima e salvem
E deixam morrer na estrada molhada de chuva.

Nem por dentro da cabeça das pessoas que não sabem
Que o sorriso largo da criança
Perante o dia escuro
É tão contraditório
Quanto o vôo da ave de rapina
Pelo céu e mar limpo
Entre o sol mais que vivo.

Dias escuros, noites claras,
Manhãs violentas, tardes lentas.
Amores aflorando, ódios sangrando,
Corpos transando, cabeças rolando.

E o dia escuro cresce.
Assim ele aparece.
Assim ele se determina.
Assim ele domina.

O olhar dos que vêem seus filhos
Irem à escola em capas que os protegem da chuva,
Mas não do frio.
O olhar dos adolescentes mortos de tédio.

A perda da vida das cores das tintas.
O triste impulso sem graça do céu cinza.
O fraco aspecto de ternuras sem carícias.
os cruéis detalhes das últimas notícias
Dos jornais, das revistas, nas bancas, livrarias.

A velha que escorrega
Caindo na lama.
Os corpos que batalham
Desejando ainda estar na cama.

Comanda os pensamentos poluídos dos homens do mal
Que guardam o sexo na cabeça e as idéias no pau.
O fundo do coração das moças de mente vazia
Que fazem bebês assim como fazem comida.

A teimosia das aves que não se cansam de voar.
A bravura das árvores que insistem em respirar.

Talvez o mistério da noite venha esconder o medo no olhar.
Mas a realidade é má e tão fácil não irá nos desvencilhar.

E o negro do sorriso da besta
Cobrirá o branco da lua,
Como a urina do bêbado
Escorrendo da calçada para rua.

Se é doce morrer no mar
É amargo morrer no asfalto
Não vale morrer de enfarte
Depois de escapar do assalto.

Nos móteis, os debates de ego
Que se fingem de sexo
Com certeza se acirrarão.
Só que eles nunca saberão
Que nas minhas mãos está a soluçao
Da limpeza de toda podridão
Que toda mentira possa sujar.

Mas não se percam nas confusas palavras desses versos-pensamentos.
Pois o dia escuro, como um pesadelo,
sucumbirá num só acinte
no despertar do nascer do sol do dia seguinte.

Marcio Rufino
Todos os direitos reservados.

DEUS É FRÁGIL (MENSAGEM DE NATAL)

Ainda há pouco
Eu estava bebendo uma cerveja num bar
Algumas crianças estavam brincando por ali
E uma menininha de cabelos louros
E olhos azuis
Mostrou-me como o Super-Homem e o Batman são frágeis
Os pais das crianças estavam do outro lado da rua
Da rua tão deserta
Um deserto tão ermo que não tinha nem Esfinge para nos olhar
Ou proteger as crianças
As crianças estavam tão sozinhas
Que pude perceber o quanto Deus é frágil
Deus é tão frágil quanto o Super-Homem e o Batman
As portas estão fechadas
E as luzes logo irão se apagar
Deus vai proteger sim
As crianças que estão em seus lares
E não as que estão pelas ruas a vagar
É tão triste ver crianças num bar

sábado, 3 de dezembro de 2011

Imersa.

Embriagada pelo cansaço...
É também pelo cinza, que circunda a cidade e pela violência física e psicológica, que nos atinge cotidianamente e levam, a alguns a se conformarem e serem engolfados, pelo maldito ar de que, tudo vai bem...
Pela ignorância que nos engessa e grassa pelas línguas, das fronteiras que dilaceram nosso pensar e agir, ainda sim renascemos.
Um salve a todos, que lindamente insistem em poetisar o mundo, com ações e palavras embebidas com fogo.

sábado, 19 de novembro de 2011

Feliz Natal

Como não formar cicatrizes?
Como não metabolizar o que se vê?
Como não entupir veias e artérias?
Como não ficar com os olhos embassados?
sem lágrimas?
Está tudo ao meu redor...
Está tudo ao seu redor...
Está tudo ao nosso redor...
mendigos nas calçadas dormindo
sobre sujeiras eternas
crianças experimentando drogas
e distantes das infantilidades
mulheres violadas para ganhar o alimento
que falta à mesa

São imensas, tórridas situações e eventos
que são marcantes, que se enraizam
que se tornam naturais, ...
E, mesmo assim...
há esperança... numa promessa...
Feliz Natal! ... mesmo assim,
CRISTO vive!

Jorge Medeiros

sábado, 12 de novembro de 2011

Elementos.

A alma revolvida... Seu olhos negros defrontam-se com os meus.
Em alguns instantes nossos imbróglios (serão) coletivizados – (E aí?) Nossos corpos ressignificados; em armas contra a acidez embutida no cotidiano.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Lançamento do Livro "Nuvens" do Poeta Arnoldo Pimentel


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Lançamento do Livro "Nuvens" do Poeta Arnoldo Pimentel























Uma vida é feita de muitos instantes. Em uma visão superficial tais instantes podem parecer corriqueiros, insignificantes e ou  ordinários. Todavia, olhares atentos os re-significam  e lidam com eles dispensando atenção merecida.
Em Nuvens, Arnoldo Pimentel nos convida a apreciação das belas  imagens de instantes simples.  Ele se torna o anfitrião que nos leva da escolha da camisa ao passeio no Leblon.
Aquele que se atenta à beleza da simplicidade, nos leva a questionar sobre a importância dos instantes, sobre o que o efêmero representa em nossa existência. O poeta nos aconselha que apesar da fugacidade do instante, ele é o que torna o que somos, o que vemos e apreciamos. Não atentar-se a isso é evaporar-se na areia, é desejar partir da vida só para não sentir dor.

 Rosilene Jorge dos Ramos

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Saudade

Saudade da época das ideologias
Das mentes brilhantes
E inconformadas
Com as injustiças,
Com as imoralidades,
Hoje só há a parcimônia,
Numa cultura de "paz"
Com um bando de gente banana
De gente sem brio
De gente que só pensa
E não age!
E viva o Brasil!
E viva a Copa do Mundo!
E viva as Olimpíadas!

Jorge Medeiros

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Cotidiano sem metáfora.


No meio de nós o aborto de sonhos:
Entre eles o pacto dos lobos.
Sem rastro. Cada um esconde punhais entre os dedos:
A espera da Ciranda, para matar cada cobra – vingança.
Sujeitos cegos. Damas sem pétalas e Cavalheiros com fogo nas entranhas.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Adolescentes na esquina - uma pequena crônica





Numa manhã de sol fui ao centro de Areia Branca, bairro do município de Belford Roxo onde moro, para comprar remédio. Cruzando a esquina da Rua Ribalta - onde fica um prédio que abriga uma padaria desativada - um grupo de cinco adolescentes trajando uniformes escolares ouviam num rádio em alto e bom som o hit Parado na Esquina do MC Robacena. O cenário denunciava o óbvio: os meninos estavam matando aula para curtirem o funk.

Entre eles havia um casal de namorados. A moça estava deitada com a cabeça encostada no colo do namorado (ou ficante) que estava sentado na calçada. Os outros três rapazes em pé riam com prazer, liberdade, descomprometimento. O menor deles dançava com uma debochada timidez - de quem tem o prazer em não mostrar tudo que é capaz de fazer. Uma coisa alí me seduzia; o descompromisso, a irreverência, o desafio e a beleza de jovens adolescentes em uma esquina celebrando a vida. O que importa se eu acho o funk uma porcaria? Se eu acho suas letras pobres? Se há pessoas que acham que elas e sua batida induzem adolescentes e crianças à violência, à pedofilia, à prostituição, ao crime e à promiscuidade sexual? O que importa se os adolescentes de hoje estão à mercê das drogas e da falta de limites? Tudo isso se apagava da minha mente. Até mesmo a crise na Educação; o conflito entre educadores e estudantes, entre pais e filhos.

Na fotografia da minha mente e do meu coração só ficava e fica até agora a cativante e envolvente imagem daqueles adolescentes parados na esquina, festejando o mundo na batida do funk; como anjos festejando o astral ao som de uma harpa.

Marcio Rufino

Créditos da imagem: Blog Contos e Rimas.

Refeit@s


Dar-lhe certeza, de que ficaremos, bem, plenamente separados – É uma incógnita.
Porém sigamos, tentemos transformar e desabafar com lágrimas e palavras, sem que sejam diluídas nossas essências; para que não fiquemos semelhantes a psicopatas coloridos.

Que o hedonismo não seja a plataforma; para nossas vivências cotidianas.

Seja o sentir, um dos ponteiros de nossos corações e que o ódio não se petrifique a ponto, de tornar-se lente.
Não nos permitamos afogar às mais íntimas e coletivas crenças, nos corpos cansados e famintos, em busca de salvação.

Que a ira não perdure, para às futuras gerações e que saiamos vivos, fortes e se possível refeitos; do vendaval em nossas aparentes frágeis estruturas.

Se pudermos, ao invés de nós vingarmos, deixemos que floresçam o que há de mais vital, em cada caminhar.

Por hora, que não usemos, como refúgio as tais ortodoxias que às vezes causam cegueiras e paralisam.
Algumas lembranças, por inúmeros momentos vão surgir e nos deixarão um pouco tontos – Ainda sim, continuemos e que o amor não mofe, em nossas vidas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Entrelinhas,




Não tente exacerbar seus delicados e afobados desejos; pois não há rodas de Sambas, que não deixem suas dores aparentes; nem livros de Foucault que desatem, o seu riso milimetricamente ensaiado, na frente dos espelhos...

Olhos desejosos, porém opacos...Estás faminto de que? Justiça reformista... Ou uma infinita secura na busca, pela culpa.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

ANJOS TAMBÉM MORREM ( Arnoldo Pimentel )



É só um breve caminhar pelas ruas que não existem mais
Algumas pessoas também caminham
A quadra de esporte tem grades cortadas
Vidas pelas ruas com asas amputadas
E o avião apenas passa
Com olhos de águia buscando suas presas
Deixando um rastro de fumaça
Deixando lágrimas nas praças
E o avião apenas passa
Enquanto o anjo ainda insiste
Em falar de esperança
Sem ver que
A rua é o esboço de um quadro
Desenho ainda sendo riscado
Que mostrará a face da solidão
Depois da desilusão
Mostrará nos campos do trigo prometido
A desolação
Visão sem importância para quem está lá no alto
Ou dentro do avião

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Incandescente.

Corpos nus , sua chama ereta; nós fundimos e nossas retinas se aliaram.
Nossos gemidos deram um tom desconcertante, a madrugada fria e aparentemente silenciosa.
Banhados e emaranhados em suor, nos tornamos unos e nos flagramos sorridentes...
Diante do gozo – passado e futuro viraram borrões e o presente resplandeceu.

sábado, 13 de agosto de 2011

Pontos.






Reescrever...renascer...amar profundamente à si mesmo e daí lançar e dançar no universo. Estar em alguns momentos solitári@ nem, sempre é fraqueza ou ódio contra algo ou alguém.
Partilhar sem pudor ou mesquinharia escondida entre os dentes. Festejar para tentar, não findar a resiliência.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Soterrado



A fúria do mundo explode diante de mim. É duro ver a terra deixar de ser a mãe conformada, resignada; e passar a ser a fêmea irada, revoltada em sua razão. Puta contestadora, indgnada a se rebelar, a esbravejar contra a exploração abusiva de seu corpo. E nós não passamos de vírus, de bactérias amargando sua auto-defesa.

É bom se sentir sozinho na Baixada Fluminense, pois assim quando ela estiver submergida sob as águas das enchentes - Atlântica contemporaneizada entre o teatro do absurdo e o humor negro - o controle de mim mesmo que implica na cruel sensação de não ter feito o suficiente, de não ter amado o suficiente vai doer menos. Assim como vai doer menos a descoberta de que não se é parte do mundo e sim o próprio mundo.

Os livros soterram palavras, pensamentos e sentimentos, mas a natureza soterra pessoas e livros. As casas viram capas de livros semi-abertos sobre o chão, desabados sobre histórias inacabadas; tramas não concluídas; personagens que não se definiram.

Quantas vezes fiz amor com meu travesseiro para calar o faminto felino predador que tentava sair de dentro do meu coração-jaula e devorar sua petitosa presa sobre as poças d'água, sobre os pântanos, sob a chuva. Quantas vezes violentei meu travesseiro para no fim acreditar que era um passarinho a se equilibrar sobre o mais leve graveto, na mais alta abóbada de uma gigantesca árvore qualquer na esperança de poder presenciar melhor a promiscuidade dos relâmpagos e das trovoadas. Tudo isso antes das catástrofes fugirem das telonas de cinema norte-americano e me ameaçarem. Mas agora lembro que não é a todos que meus pensamentos e sentimentos interessam.

Os morros-bibliotecas-encostas desabam sobre casas-livros-enciclopédias onde vivem pessoas-sentimentos-pensamentos-idéias.

Marcio Rufino
Todos os direitos reservados

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

INTERIORES (Arnoldo Pimentel)


Silencioso pelo vale
Onde palavras nada valem
Apenas tomam o rumo
Que já foi escolhido

sexta-feira, 29 de julho de 2011

SÓ NOVAMENTE ( Rosilene de Souza)


Rosilene de Souza é poetisa da cidade de Curitiba PR

Blog da Rosilene   www.sopadeletrinhasdalenynha.com

SÓ NOVAMENTE

É noite, eis-me aqui a sonhar contigo novamente.
Talvez príncipe, talvez homem somente.
Divagando em meus sonhos lentamente.
Transportando-me em um mundo novo alegremente!

Com um beijo calmo, ora quente.
Faz-me sentir no peito já latente.
As confusões dessas emoções tão eloquentes.
E a sentir-me presa nesse abraço envolvente!

E quando acordo desse sonho tão querido.
Sinto falta de tudo, até do que não foi sentido.
Tento voltar a esses sonhos rapidamente.

Nesse devaneio, forço o pensamento, mas não consigo.
Tento reviver tudo o que foi sentido.
E amanhece, eu continuo só novamente!!!


sábado, 23 de julho de 2011

O verbo e o silêncio...

Esse texto é uma parceria com Zé Eduardo


Não é isso mesmo, não me chame de meu anjo... Quando sei, bem o que você quer ...se quer me devorar, cuidado – poderá ter espinhos fincados em sua pele.
Meu corpo te lembra um paraíso? Ele é um labirinto, sem mapa, talvez sem um fim, para saciar seus desejos mais incontáveis – até para às paredes, mais fétidas das cidades.

Por que esse medo de me olhar nos olhos? Essa hesitação que só cessa quando você está pronto para entrar em mim é tão passageira quanto o orgasmo que alcança solitário em meu corpo.

Queria que minha pele te trouxesse lembranças mais bonitas do que mente tão bem os teus olhos. As mesmas inocentes mentiras que me bastaram na primeira noite e que hoje nem sequer esfriar o suor de minha pele.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O despertar de Adão




Outro dia ao acordar, imaginei-me no lugar de Adão. Mas não o Adão de Eva; não o Adão da árvore do fruto da ciência do bem e do mal; não o Adão da expulsão do Paraíso; não o Adão que gerou Caim e Abel. Mas o Adão de seu princípio. O Adão que sendo o começo de tudo, foi ele o próprio princípio do começo. E sendo ele seu próprio início, ainda sofria e se espantava com seu próprio desconhecimento de si e de tudo que lhe rodeava.

Falo do Adão que tinha acabado de despertar do primeiro sono gerador de sua vida, e sendo primeiro, também gerador da humanidade. Falo do Adão que acordou do sopro nas narinas e ao sentir-se barro fresco revestido em epiderme, se fragilizava e se confundia com aquilo que lhe era dado.

O impacto da dor do princípio das coisas e seu espanto é algo inigualável, pois ao acordar sentia a mim, meu colchão e meu lençol como terra pura. Eu era um Adão-Frankstein que desconhecia a mim e ao mundo e sendo me dado de presente, não sabia o que fazer com aquilo tudo. Que já nascia homem e sendo homem feito, recém-nascido, dado de presente de si para si, não sabia o que fazer com o primeiro dia, a primeira fome, o primeiro medo, a primeira sede, o primeiro desejo, a primeira raiva, a primeira manhã, a primeira manha, já que era eu o primeiro.

Não ser acostumado consigo mesmo e com o mundo causa um êxtase gozosamente insuportável. O susto das coisas em volta é algo fatalmente e irremediavelmente bom, pois a minha reação perante os livros, o guarda-roupa, o criado-mudo e os outros objetos do meu quarto deveria ter sido como a perplexidade de Adão perante as árvores, o rio, o mato, os bichos e o céu imersos na redundância física do momento que se exibia. Que é a reação do prazer em conhecer sem conhecer o prazer. O prazer inconsciente e desconhecido é um milhão de vezes melhor do que o prazer propriamente dito. Ainda mais quando se concebe e se pare a si próprio, sendo o seu próprio pai e sendo a sua própria mãe.

Cabia a mim, apenas, me agarrar ao primeiro andar e caminhar com bastante dificuldade até o banheiro, onde liguei a torneira e acolhi nas minhas mãos em conchas aquele outro ser sedutoramente desconhecido: a água. E o primeiro contato desta no meu rosto fazia tudo gradativamente se apagar. E do redemoinho que nascia do ralo, eu via escoar-se tudo: o sentido primeiro das coisas; a sensação primeira de tudo e o Adão que havia em mim.

Marcio Rufino
Todos os direitos reservados.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

VIDA CAMPESINA ( José Caldeira )


VIDA CAMPESINA
Autor: José Caldeira
Blog  http://covadabeirainterior.blogspot.com


A vida de outros tempos, no mesmo lugar,
Era pacata, simples, monótona e rotineira.
Trabalho, campo, família, vizinhos, altar,
Serões animados, com cantoria à lareira.

Agora, dias sem Jornais, Internet, Televisão,
São horas infindas de bocejo, modorra e neurose,
Como se viver dependesse da tecnologia e da razão,
Esquecendo pessoas que falam, historiam, em osmose.

Hoje a vida não tem passado nem presente.
Vive-se em função do amanhã, do futuro,
Esquecendo-se que o ontem é já ausente.

O amanhã é uma incógnita permanente,
Desperdiçar os dias com o depois, inseguro,
Será, porventura, loucura e tontaria imprudente.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

LIBERDADE VIGIADA



Do outro lado do muro
Vinham as vozes agitadas
 Da quietude livre,
Liberdade vigiada
Pela mão estendida para o alto,
 Que só no olhar já feria
E fazia cativo
O dia que amanhecia

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Juntos



E juntos éramos uma geração,
uma revolução,uma interrogação.
E juntos éramos uma história,
uma trajetória, uma glória.
E juntos éramos uma aventura,
uma postura,
uma fratura exposta em pleno ocidente nacional.

E eu era apenas uma criança,
uma esperança de um futuro melhor.
Que ainda nem sabia que todo amanhã vira hoje,
para depois morrer como ontem
e renascer como anteontem.

Um curumim, que, coitado,
achava que só porque era começo,
nunca seria meio nem fim.

Um neném,
um alguém que nada sabia da vida,
porém, achava que alguma coisa da vida sabia além.

Quando eu olhava para o céu cor de anil,
você passou e nem me viu.
Pertubando toda minha calma.

Não sou Lázaro,
mas alguns vira-latas já lamberam minhas feridas d'alma.

Alma essa que me enxerga sem me ver,
que me saboreia sem sentir meu gosto,
que me masturba sem me tocar,
que me enlouquece lucidamente.

Eu, então, passei a te perseguir.
Há duas horas digo que vou embora
mas continuo aqui.

Às vezes acho
que você é uma pequena grandeza,
já que sei muito bem
que para o amor
não se põe mesa.
Mas de repente, eu caio do cavalo.
Chorar? Em que ombro?
Já que a sensação de estar caindo
é mil vezes pior do que a dor do tombo?

Me xingo, me humilho,
me rasgo, me ajoelho,
me olho no espelho
ou leio um livro de Paulo Coelho.

Mas eu fico na minha.
Você fica na sua.
Uma inspiração me cobra
A criação que na verdade é sua.

Passeamos embaixo da terra,
Em cima do cèu,
Dentro do mar.

Viajamos na frente do ônibus,
Submerso ao navio,
Rasante ao avião,
Tudo é um só coração.

Olho para trás não há ninguém,
Nenhuma pessoa, nenhum espírito, nenhum perispírito,
Nenhum sinistro coelho nos roendo a carne como legume.

E será que chegamos lá?
Será que vamos alcançar
algum rabo de cometa?
Alguma hélice de helicóptero?

Alguma asa de beija-flor?
Algum canto do sabiá?
Só Deus o saberá.

E juntos éramos uma luta, uma abertura, uma cultura.
E juntos éramos uma dinastia, uma energia, pura poesia.
E juntos éramos uma ilusão, uma consagração,
verdadeira fusão da realidade com a paixão
no Brasil da minha imaginação.


Marcio Rufino
Imagem: Google images

quarta-feira, 8 de junho de 2011

NÃO HÁ SALVAÇÃO DEBAIXO DO SINAL FECHADO


Agora só me resta
Ir olhar o corpo do cara
Que está estirado
Debaixo do sinal fechado
Sendo pisoteados pelos transeuntes
Que atravessam a via
Sem prestar atenção
Na viatura do corpo de bombeiros
Que está estacionando
Com a sirene ligada
Para prestar o socorro tardio

domingo, 29 de maio de 2011

MEDO


Ficou apenas o medo entre
As quatro paredes brancas
Totalmente brancas
O corpo nu e torturado
Com a alma violada
Ficou esperando
O anjo vir lhe buscar
Assim terminaria sua sina
Que começou
E se acabou
Quando quis ser livre
E poder voar

terça-feira, 24 de maio de 2011

Restou juntar
os restos soprados
pelo vento do passado
catei os mil pedaços
silenciosamente
eram vias, eram veias,
eram vultos e olhares.
Os vestígios desordenaram
a coreografia do meu ser
e surgiram depressões,
alergias, dopaminas,
e, mesmo assim,
o coração pulsava
querendo enganar-me
novamente.

Jorge Medeiros
(22-04-2011 - 01:25h)
O amor é ausência
em sua plenitude
Há corpos, gemidos,
palavras fartas e fáceis

O amor é opaco
sem verdade inteira
só possui doces sussurros
e orgasmos esparsos,
só, mais nada,
nem um verso,
nem poesia.

Duda Aurora

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Rio Antigo

Estou preso num passado
não vivido
Não pertenço
a este lugar incomum
O batidão do funck
não só atormenta
o meu coração
desconecta a minha
razão
Não vejo sintonia
nem harmonia
nessa vidinha cotidiana
Tudo passa em flash
na televisão
e na memória humana
Prefiro revirar o passado
não vivido
olhando as fotos
do Rio antigo.

Jorge Medeiros
(21-04-2011 - 21:19h)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

LUAR NO LADO ESQUERDO



Apenas parei o carro
No canto da estrada deserta
Caminhei um pouco
Deitei-me de costas
Apoiando a cabeça nas mãos
Sobre a grama molhada
E fiquei olhando a lua
Quarto crescente
Com um olhar assim como o meu
Tão ausente

segunda-feira, 18 de abril de 2011

CELA 4X4

Minha cela não é de apenas 4x4
É muito maior que até onde
Alcançam meus braços
Mais infinita que o próprio espaço

Que a própria solidão
Que invade a vida
Daqueles que não tem nem mesmo
Um pedaço de pão

Minha cela é menor que o 4x4
Do meu quarto
Mais sombria que meu desabafo

Que o escarro do poder
Quando tortura um corpo
Politicamente depravado

Minha cela é apenas
O meu doce querer
De ser livre
Enquanto aqui viver
E ser livre depois
Que morrer

quarta-feira, 13 de abril de 2011




A leveza
de minha existência
se encontra
no peso de um
corpo suado
sobre o meu...

Jorge Medeiros

sexta-feira, 8 de abril de 2011

ÁTOMO

Átomo

Fui adiar a claridade
levar as sombras pra passear
Encontrei outra pessoa
na mesma rua a reclamar

andei cansada...
de tudo um pouco
de tudoum  nada ...
depressão?
acho que não.

talvez falta de firmeza...
não basta a fineza!
pode ser tambem falta de jeito,
afinal nem tudo que você diz
 é o que é.
(perdoe mas ...você não é bom em respeito!)

Ainda tem o lance do átomo
que colide com outra parte de si
e forma em nós um tesouro
ou será um besouro?

Você não sabe.
passa por cima ,
queima sem ler
queima sem saber
acredita no que vê.
Nem imagina o meu ser...
nem imagina que com você
não posso mais viver.

((Gabriela Boechat))

quinta-feira, 7 de abril de 2011

FUNDO


Descer ao fundo
Pode não ser o fim
E sim um renascer
De quem não tem porque viver


sexta-feira, 1 de abril de 2011

SERÁ?

Autora:  Samantha Barreto
Blog:  http://marvelousdreams.blogspot.com

Não vale mesmo nem sequer um suspiro,
mas me arranca montes e montes deles.
Não entendo esse tamanho poder.
Talvez eu seja obrigada a acreditar,
que estamos mesmo destinados a ficar juntos.
Pois então, se me pertence, por que não fica de uma vez?
Por que não fica, e me tira essa dúvida.
Será você, minha lagosta

terça-feira, 29 de março de 2011

VENTO COM NUVENS



VENTO COM NUVENS
Autor: Arnoldo Pimentel
Esse poema faz parte da Trilogia do Dia Nublado, e a cena da moto é inspirada na liberdade poética do meu amigo e parceiro Sérgio Salles-Oigers.


Parece até que vi a praia
Que ouvi gaivotas
A minha volta
Quase senti suas palavras
Tocarem meu rosto
Olhei pro céu
E não vi o sol
Subi em minha moto
E segui sem destino
Sem sentir o vento
Nos óculos escuros
Apenas segui por ai
Sem pensar em nada
Na tarde nublada

domingo, 27 de março de 2011

O que desceu dos olhos
agora, nesse instante
puro, não são lágrimas
de um pierro perdido
no fim de carnaval
o que choro agora
são toneladas imensas
de amor acumulado

Jorge Medeiros
(08-03-2011)

sábado, 26 de março de 2011

BICHO PAPÃO




Para ir à padaria comprar seu pão
É o mesmo que amanhã
Com uma arma na cintura
Passará em frente seu portão
E falará
“Entra tia que o bicho vai pegar”
E depois tombará
Sem ver a vida passar


sábado, 19 de março de 2011

EFEITO (Silviah Carvalho)



O sofrimento é a conseqüência de nossos atos
A alegria é o resultado de nossas conquistas
A paciência é fruto de nossa esperança
A nossa esperança é resultado
De nossa perseverança
O que recebemos é o resultado do que damos
A morte é o resultado da vida
A vida é uma passagem com a morte garantida
Nada mais

Autora: Silviah Carvalho 

sexta-feira, 18 de março de 2011

A morte de minha memória




Abre o pano. A rainha Hécuba está no palco arrasada diante das ruínas de Tróia, destruída pelos gregos. Isso me arrasa também, pois da platéia lembro-me de eu menino, com 5 anos de idade, quando minha mãe me levou no Tivoly Park. Quando estava no cavalinho um fotógrafo bonachão com barba e bigode fartos e brancos parecendo um Papai Noel gostou de mim e tirou uma foto minha. Qual o adulto que não se apaixona por um garotinho rechonchudinho, gordinho e carismático? Só que minha mãe não tinha dinheiro para pagar a foto. E infelizmente fui embora para casa sem aquela memória maravilhosa de um inesquecível momento de minha vida.

Volto a platéia do teatro e vejo Hécuba tomar uma porrada atrás da outra através das notícias do mensageiro. A filha Policena que terá de ser sacrificada no túmulo de Aquiles; a outra filha louca Cassandra que terá de ser sacrificada em honra ao deus Apolo, o netinho recém-nascido, filho de Heitor que será atirado do alto das muralhas de Tróia para não correr o risco de crescer e vingar os seus e a coitada não pode fazer nada. Eu também não pude fazer nada pelos textos infantis que escrevi ainda menino das minhas aventuras no Sítio do Picapau Amarelo onde eu aprontava mil e umas com a Emília, o Pedrinho, a Narizinho e o Visconde de Sabugosa. Eu escrevia tudo num caderno inspirado no programa que mais mexia com a minha cabeça. Mas o caderno se perdeu na poeira do tempo.

Volto novamente à platéia do teatro e vejo Hécuba se lamentar com Zeus de seu infeliz infortúnio e seguir cativa dos gregos. Fecha o pano. Fim do espetáculo.

Vou ao camarim cumprimentar a atriz e qual é o seu assombro quando digo a ela:

- Liga não, Hécubinha. Isso já aconteceu comigo também.

Marcio Rufino
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