FOLHA CULTURAL PATAXÓ

.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

"Poema, pequeno!", 1996 - Fabiano Soares da Silva


3ª publicação da Folha Cultural Pataxó "Poema, pequeno!" de Fabiano Soares da Silva - Pequeno livro de poema, publicado em 1996, sem apresentação e com reunião de treze poemas prematuros com algumas ilustrações desproporcionais feitas pelo autor. O livro digitado entre as aulas de um curso de Wordstar em Nova Iguaçu, impresso em uma loja (copiadora) próximo à rua Quintino Bocaiuva e editado com transfer de letras vendido na papelaria Casa Cruz. 


Nesse livro encontra-se o poema "Por você":

“Faltou o leite da criança
E a jovem-filha
Com sua jovem-mãe
Veem o jovem-pai que sai
Na velha-vida
Condução, passagem,
Calote...
A esperança foi a primeira
Era uma passageira
Esperando seu dia chegar”

Gambiarra Profana e Folha Cultural Pataxó.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

"Et Cœtera, poesias", 1996 - Fabiano Soares da Silva


2ª publicação da Folha Cultural Pataxó "Et Cœtera, poesias" – Pequeno livro publicado em 1996, deFabiano Soares da Silva conta com a presença de onze poemas e uma pequena apresentação em forma de poema.

O livro é uma releitura de um projeto de livro feito todo com colagem de revista e fotografia. Teve na edição e arte a participação de Raimundo Bemvindo Gomes.

Encontra-se nesse livro o poema "Uma etapa da vida I":

“Revolução sexual
Do amor livre,
Rosas que desafiam
Os estigmas do tempo.
Não se ouve palavras,
O que brilham são os olhares.”

terça-feira, 4 de setembro de 2018

“Evento da Vida”, 1995 - Fabiano Soares da Silva

Segunda tiram da publicação, com capa de cor cinza

1ª publicação da Folha Cultural Pataxó “Evento da Vida”, do ano de 1995, de Fabiano Soares da Silva. Coletânea de poemas organizada de modo independente, de montagem e de reprodução, com o poeta Antonio Cabral Filho e, suporte de editoração digital com Maurício Campos Dos Santos.

É deste livro o poema "Convívio" declamado até hoje nos saraus em que a Gambiarra Profana participa.

Convívio

A Mãe saca a arma,
Mira, com felicidade eufórica
E atira
Na boca da criança
O leite materno.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A BATALHA NEGRA OU OS HOMENS QUE ESTAVAM NA VARANDA SE PROTEGENDO DA TEMPESTADE SOBRE O BOSQUE

A BATALHA NEGRA OU OS HOMENS QUE ESTAVAM NA VARANDA SE PROTEGENDO DA TEMPESTADE SOBRE O BOSQUE


- Menininho, venha aqui pra dindinha ajeitar esse uniforme. Hoje é seu primeiro dia na escola, tem que ir bonito.

O menininho foi até a dindinha que ajeitou o uniforme.
- Menina, cuidado com ele no caminho pra escola.
- Está bem tia.
- Agora vão pedir a benção a vovó e a mamãe.

A menina e o menininho foram a até vovó, a abraçaram e disseram:
- Sua benção vovó.
- Deus abençoe vocês.

Depois foram até a mãe:
- Sua benção mamãe.
- Deus abençoe.

A mãe se abaixou, abraçou e beijou o menininho, depois abraçou e beijou a menina.
- Não se esqueçam da dindinha. – Disse a vovó.

Eles abraçaram a dindinha e pediram a benção.
- Deus os abençoe meus anjos.

Quando estavam saindo pela porta da sala, a mãe disse:
- Menina, cuidado com ele, não atravesse na bomba, é perigoso, passe pelo parque para atravessar a rua.
- Sim senhora mamãe.

Eles saíram da casa, a menina fechou o portão e seguiram o caminho da escola pelo canto da calçada. Foram devagar e o menino parecia tranquilo, sem aquele medo da escola que era tão comum, depois de alguns minutos caminhando passaram pelo parque.

- A mamãe falou para atravessar pelo parque. – Disse o menino.
- Pela bomba é mais perto, não tem perigo. – Disse a menina
- A mamãe falou. – Disse o menino.
- Está bem, vamos pelo parque. – Disse a menina voltando e entrando no parque.

O parque de diversões ficava num terreno grande e só funcionava nos fins de semana, mas tinha a passagem livre e as mães preferiam atravessar por ali e não pelo posto de gasolina, chamado por alguns de bomba. Eles atravessaram a rua e seguiram em direção à escola. Um pouco antes da escola o menino parou.
- Menina, que lugar é esse todo de pedra?
- É um lugar aonde as pessoas buscam coisas invisíveis.
- É bonito lá dentro?
- Dizem que é muito bonito.
- E lá em cima, o que é?
- É uma torre, de lá dá pra ver muito além do mar.
- E você acredita em coisas invisíveis?
- Acredito, mas às vezes tenho medo.
- Medo de que?
- De crescer e deixar de merecer.
- Mas todos nós vamos crescer.
- É disso que tenho medo, de crescer.
- De crescer?
- De crescer e não ver mais o céu.
- Mas...
- Agora chega de conversa, chegamos na escola.

A escola parecia grande, e ficava ao lado da igreja de pedra, tinha dois pinheiros na entrada e dois lá nos fundos, depois do pátio, junto ao muro. O menino sentiu um certo tremor, mas foi em direção ao portão sendo puxado pela menina que estudava ali mesmo, ele olhou e entrou.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

BATALHA DO PACÍFICO

A BATALHA DO PACÍFICO

A BATALHA DO PACÍFICO

         O avião pousava no meio da rua. A rua era comprida e larga. Quase não havia casas. Eu costumava ficar na calçada da farmácia e de lá podia ver quando fazia a curva próximo da serra. Nesse momento eu saía correndo com os braços abertos como se estivesse num voo rasante sobre meu alvo numa batalha e ia, com os outros garotos da minha idade ver o pouso de perto.
          Depois de pousar o piloto agradecia os aplausos, nos abraçava e seguia para a padaria para tomar um café e conversar. Nós ficávamos ali, perto do avião, olhando todos os seus detalhes, esperando a hora de levantar voo. Era um avião daqueles usados na segunda guerra pelos americanos. Um avião com suas glórias e seus pecados. Um avião com seus sonhos e seus pesadelos.
          Eu gostava tanto que perturbei um vizinho que trabalhava com madeira até aprender fazer pequenos aviões. Fiz uns cinco aviõezinhos  de madeira e brincava com eles na varanda da casa onde morava. Tinha voos rasantes e terríveis batalhas aéreas.
         Um dia a rua foi diminuindo, muitas casas foram nascendo e o avião que ali pousava desapareceu, assim como meus aviões de brinquedo, que foram sendo deixados de lado conforme o tempo passava e eu crescia.
         De repente me vi numa batalha muito pior, muito mais difícil que aquelas aéreas no tempo de criança, mais real que Memphis Belle ou os filmes de batalhas aéreas com John Wayne, Gregory Peck ou Clark Gable, aquela que todos nós enfrentamos um dia, a batalha da vida. A batalha que por mais que façamos, por mais que lutamos, com lágrimas ou sorrisos, com chegadas ou partidas, com flores raras ou flores simples, daquelas lindas, colhidas em qualquer jardim, um dia chega ao seu fim.
Autor: Arnoldo Pimentel

terça-feira, 12 de maio de 2015

AINDA EXISTEM SALAS ESCURAS




Às vezes olho o copo em cima do balcão
E vejo as caminhadas que era obrigado a fazer olhando todos os lados
Ainda encontro vestígios daqueles dias
Ainda encontro marcas da terra que engoliu o meu corpo.

O relógio ficava no lado direito da entrada
No meu lado esquerdo eu colocava minhas anotações
Eu acreditava nelas sem imaginar que se perderiam
Mesmo depois do abraço ao redor da lagoa
Mesmo depois da luta para se livrar dos riscos no corpo
E das sequelas, sempre imortais.
Mesmo depois dos gritos de euforia após tanto tempo de silêncio
Na praça onde os muros foram derrubados ao lado de amigos que nunca mais veria.

Nunca gostei de telefone
Deixava tocar, tocar, até a ligação cair
Quando subi o morro encontrei a palavra
A jaqueta que eu usava era jeans
A calça e a camisa por baixo da jaqueta também
Mas são tantas palavras, que ficaram embaçadas,
Procurei meus óculos
Mas havia esquecido em casa.

Ainda tenho o copo e os bares
Ainda tenho corpo
E ainda encontro os vestígios.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O TIGRE DE PAPEL


           “Os homens que Pisaram na Cauda do Tigre” do mestre Kurosawa falava de valores como honra, dignidade, lealdade, talvez por isso tenha ficado na masmorra durante um tempo antes de ser liberado pelos censores. Os censores estão em todos os lugares, nas esquinas, nas escolas, no trabalho, na cidade, no campo e às vezes dentro de nós mesmos.
        
- Quer dizer que você está fazendo o dever de casa enquanto faço a chamada.
- Não tenho tempo professora, saio daqui e trabalho até tarde numa janela de frente pra rua, onde passam ônibus, caminhões e minha infância sem que eu a veja.
- Você ainda reclama. Vá para o quadro e escreva cem vezes o que eu ditar.
          A professora não ensinava democracia. Ela não sabia o que era democracia e gostava de atirar o apagador em nossas cabeças. Eu não sei o que é democracia, eu não conheço a coisa mágica que chamam de democracia. Uma vez eu estava numa manifestação trabalhista. Não havia ninguém nas ruas. As lojas estavam fechadas. Era uma greve. As reivindicações são sempre muitas, pois nunca são ouvidas. Como em todas as manifestações, os ânimos estavam exaltados, mas tudo estava sob controle até que eles apareceram, os da direita e os da esquerda, eles dizem que são diferentes, mas no fundo são iguais e eles iriam atirar, sempre atiram e nós éramos o alvo perfeito. Recuamos correndo pela rua, alguns amigos caíram, não tínhamos como ajudá-los, pois não tínhamos um opala, um gordini ou uma mercedes, ou uma cópia autenticada dos direitos humanos, só tínhamos nossa carteira de trabalho e um cartaz com os dizeres:
 “Não somos invisíveis, não somos almas ocas e queremos nossos direitos.”
Durante nossa fuga pela rua margeada por muros altos de concreto percebi que seríamos capturados, percebi que estamos mortos, que estamos todos mortos.
          Um dia levantei antes do sol, tirei minha mochila do armário e peguei a estrada que passava entre os abetos e os cactos floridos, eu podia ouvir a canção do vento cortando o céu onde as estrelas se moviam virando o rosto para não ver a liberdade em estado de sítio. Nessa viagem psicodélica eu imaginava que a estrada fosse infinita, que longe dali não haveria alamedas, porões, pátios vazios, números de registros ou salas decoradas, mas a estrada terminava no tempo que eu teria que bater na porta dos dias que nos esperam.
- Aonde vai?
- Vou pra longe, criar galinhas, plantar tomates e pimenta.
- Perdeu a coragem? Está fugindo da luta?
- Não. Cansei de lutar, já tenho muitas marcas, muitas marcas.